Nota de esclarecimento à população:

A ABRAFIN, Associação Brasileira de Fisioterapia Neurofuncional, imbuída de sua responsabilidade de prover a

população das informações mais confiáveis no que tange ao exercício da especialidade, vem a público manifestar seu repúdio a algumas das informações veiculadas em reportagem sobre paralisia facial apresentada no programa
“FANTÁSTICO” no domingo passado, dia 15/01/17. Na reportagem em tela, a atuação fisioterapêutica é diversas vezes colocada como ineficaz em detrimento de um “novo método” desenvolvido na Holanda, baseado em técnicas de alongamento miofascial e imagética motora (imaginar o movimento). Importante lembrar que ambas as técnicas são rotineiramente utilizadas por fisioterapeutas para este e outros fins.

O surgimento de novos métodos é benéfico e a ABRAFIN aplaude o desenvolvimento científico, porém a criação de uma abordagem que exclui as evidências científicas que fundamentam uma profissão inteira é questionável. Para que a ciência se desenvolva, não se faz necessário desmerecer as experiências já consagradas. Pelo contrário, é a partir destas que a ciência se desenvolve. A Fisioterapia Neurofuncional é a ciência que inclui o uso de vários métodos e recursos utilizados no momento certo e para um
determinado fim, não podendo jamais ser vinculados a uma determinada técnica, método ou recurso.

Há que alertar a população de que uma paralisia facial periférica (PFP) se dá em função da lesão de um nervo, ou seja, da estrutura que conecta o cérebro com os músculos. O grau de recuperação depende do quanto esse nervo foi afetado. Como o nervo facial (nervo afetado nos casos de paralisia facial) é um nervo predominantemente motor, os sinais mais frequentemente encontrados são a fraqueza dos músculos da face unilateral. Assim, para testar se há PFP, solicita-se ao indivíduo para “fechar os olhos” e “mostrar os dentes”. Nos casos de PFP, o trabalho da fisioterapia se dá no sentido de manter a simetria facial de modo a que os músculos fracos, mas com alguma atividade, possam ter possibilidade de se
fortalecer e atuar no máximo de seu potencial. É importante ressaltar que geralmente as formas não idiopáticas da paralisia facial periférica, como a que foi apresentada na reportagem do Fantástico, costumam ser mais graves e por consequência, de recuperação mais difícil.

Para contribuir com o maior entendimento da população sobre o tema, a ABRAFIN envia abaixo uma
pequena descrição do que é recomendável e do que não é, no caso de acometimento por paralisia facial periférica.

O que dizem as evidências cientificas gerais e mais recentes sobre o tratamento da paralisia
facial (1)?

É recomendado:

  • Proteção ocular se o fechamento ocular for incompleto, que pode incluir lubrificação com colírio, por
    exemplo e fita adesiva da pálpebra;
  • Tratamento medicamentoso: No caso da paralisia facial idiopática (ou de Bell), nos primeiros dias é
    recomendado o uso de corticosteroides, ao longo das primeiras semanas, pois aumenta a probabilidade
    de recuperação completa da função motora facial; Medicamentos Antivirais podem ser utilizados em
    associação com corticosteroides, mas não isoladamente (OBS: A prescrição do medicamento é
    competência do profissional médico e não do fisioterapeuta);

Tratamento fisioterapêutico:

  • Exercícios faciais personalizados podem ajudar com a melhora da recuperação funcional em pacientes com paralisia facial, principalmente nos casos mais grave e em casos crônicos;
  • Acupuntura pode melhorar os resultados do uso de medicação + Fisioterapia.

Não é recomendado:

  • Não há evidências suficientes para apoiar o uso de cirurgia de descompressão do nervo facial (OBS: Acirurgia é competência do profissional médico e não do fisioterapeuta).

Algumas recomendações da ABRAFIN:

    1. Sobre a consulta, avaliação cinesiológica funcional, prognóstico e orientações sobre a
      recuperação funcional:

      • É necessário avaliar o grau de comprometimento das funções relacionadas com o nervo facial. Sugerese avaliar a simetria facial ao repouso, a simetria facial durante os movimentos e a existência ou não de sincinesia (movimentos involuntários) ou contratura facial (“dureza/tensão” dos músculos). O registro em foto ou vídeos é conveniente.
      • Avaliar o retorno do movimento após o início da fraqueza muscular, pois o período de retorno dos movimentos (e demais funções do nervo facial) são fatores de prognóstico que devem ser considerados nos primeiros dias/semanas de acompanhamento fisioterapêutico para orientação ao paciente e sua família, além de equalizar expectativas quanto o tratamento fisioterapêutico
      • Considerar, além das funções da face, eventuais limitações das atividades e participações do indivíduo na sociedade (sair para comer em lugares públicos, lazer, etc.), fatores pessoais (doenças pré-existente, idade, gestação, etc.) e alguns fatores ambientais que podem servir como facilitadores ou barreiras. Todos estes critérios podem influenciar no prognóstico para a recuperação da funcionalidade global.
    2. Sobre o tratamento(1)
      1. Se há retorno gradativo dos movimentos nas primeiras 3 semanas: orientações sobre o problema e sua recuperação espontânea devem ser fornecidas e só um acompanhamento fisioterapêutico semanal é recomendado, até o retorno completo da função motora e simetria da face. Exercícios faciais e acompanhamento intensivo não estão indicados para estes indivíduos com disfunção leve e recuperação
        espontânea;
      2. Indivíduos sem indícios de recuperação nos primeiros dias/semanas: devem ser acompanhados mais de perto. Orientações sobre as chances de recuperação nos primeiros três meses, treinamento para a simetria facial ao repouso, massoterapia facial (principalmente para o lado oposto a lesão) e exercícios de facilitação e controle do movimento na medida da recuperação gradativa são estratégias possíveis para este subgrupo de pacientes;
      3. Casos crônicos: Simetria ao repouso, ao movimento e a inibição de sincinesia devem ser os desfechos perseguidos nestes casos, com muita orientação sobre a influência da tensão na funcionalidade da face. Recursos como a massagem facial, relaxamento e imagética podem ser úteis.

Há sugestões de progressão dos exercícios na literatura que podem seguir modelos multiprofissionais como o sugerido abaixo:

Categoria Tratamento Repetições Frequência
inicio:

  • Assimetria ao repouso
  • Movimentos iniciais ou mínimos
  • Comprometimento funcional grave
ADM ativo assistida Movimentos simétricos Orientações sobre o processo de melhora
Pouca (<10)
Alta (3-4x/dia)
Facilitação

  • Assimetria mínima ao repouso
  • Fraqueza leve ou moderada
ADM – Ativa Exercícios resistidos
Alta (10-20)
Moderada (1-2x/dia)
Controle do movimento

  • Olho estreito, sulco nasogeniano profundo
  • Fraqueza leve ou moderada Sincinesia
Movimentos isolados
Movimentos simétricos
Controle da sincinesia
Alta (30)
Qualidade, não
quantidade
Controle, não força
Alta (3-4x/dia)
Relaxamento

  • Tensão facial ao repouso
  • Espasmo facial
  • Limitações psicossociais
  • acentuadas
Massagem, alongamento
Relaxamento (Jacobson e
meditação)
Movimentos rítmicos
Baixa a moderada
Como indicado pelos sintomas

Legenda: ADM = Amplitude de movimento. Fonte: Brack e VanSweringen(2, 4).

Finalmente, a ABRAFIN sugere a população em geral que busque informações e acompanhamento
fisioterapêutico preferencialmente com profissionais fisioterapeutas especialistas registrados em
Fisioterapia Neurofuncional.
Dúvidas, contribuições e busca por profissionais especialistas podem ser obtidos no site
www.abrafin.org.br

Referências:

        1. DynaMed. Record No. 116940, Bell palsy Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995; 2016 [atualizado em: 09 dez 2016; acessado em: 18 jan 2017]. Disponível em:
          http://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&db=dnh&AN=116940&site=dynamed-live&scope=site.
          Necessário registro e login.
        2. Brach JS, VanSwearingen JM. Physical therapy for facial paralysis: a tailored treatment approach.
          Physical Therapy. 1999;79(4):397-404.
        3. Robinson MW, Baiungo J, Hohman M, Hadlock T. Facial Rehabilitation. Facial Rehabilitation Operative
          Techniques in Otolaryngology. 2012;23(4):288-96.
        4. VanSwearingen J. Facial Rehabilitation: a neuromuscular reeducation, patient-centered approach. Facial Plastic Surgery. 2008;24:250-9.

Os autores declaram a inexistência de conflitos de interesse (profissionais, financeiros e benefícios diretos ou indiretos) que possam influenciar o teor do documento.

Esta nota de esclarecimento foi redigida por:
MEMBROS DA DIRETORIA DA ABRAFIN TRIÊNIO 2017-2020:

Diretora Presidente – Dra. Sibele de Andrade Melo Knaut (PR)
Diretor Vice-Presidente – Dr. Felipe Lemos (SP)
Diretor Administrativo – Dr. Lázaro Juliano Teixeira (SC)
Diretora Científica – Dra. Sheila Schneiberg Valença Dias (SE)
Diretora Financeira – Dra. Geciely Munaretto Fogaça De Almeida (SC)
Diretora Secretária – Dra. Lívia Fachinetti (RJ)
1º Suplente – Dr. Diogo Suriani (GO)
2º Suplente – Dra. Bruna Baggio (RS)
3º Suplente – Dr. Matheus D’Alencar (BA)
COM A COLABORAÇÃO E ANUÊNCIA DE:
Dra. Solange Canavarro (Delegada da ABRAFIN – RJ)
Dra. Kátia Monte-Silva (Membro da Comissão Científica da ABRAFIN – PE)
Dra. Cristiane Sousa Nascimento Baez Garcia (Membro da Comissão Científica da ABRAFIN – RJ)
Dr. André Rocha (Membro do Conselho Fiscal – SC)

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